Marcele Linhares é natural da cidade do Rio de Janeiro e tem 42 anos, é graduada em Composição de Interiores pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é mestre e doutora em Artes Visuais pela UFRJ / EBA / PPGAV. Atualmente exerce a função de professora do curso de Tecnologia em Gestão de Turismo (TGT) na disciplina de História da Arte no Centro Educacional Federal de Tecnologia do Rio de Janeiro (CEFET/RJ).
Conheci
Marcele Linhares na CEFET/RJ pela CEDERJ como minha professora na disciplina de
História da Arte, também já tendo sido minha orientadora no trabalho acadêmico “MNH:
revendo a história nacional e pensando no turismo cultural” publicado junto aos
outros anais do XI Semintur Jr. da Universidade de Caxias do Sul – RS (UCS-RS).
Você possui graduação em Composição de Interior
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, depois de concluir em 2002,
aperfeiçoou seus conhecimentos em Artes Visuais realizando mestrado e
doutorado. Desde então sempre atuou na área acadêmica também como História da
Arte e hoje atua como coordenadora do curso de pós-graduação em Patrimônio
Cultural. Como foi seu processo de começar na área de Composição de Interior
até a de Patrimônio Cultural?
Linhares: Desde o início da
faculdade de Composição de Interior eu já me interessava pelas disciplinas de
História da Arte que eram comuns a todos os cursos da Escola de Belas Artes
durante o ciclo básico. No ciclo profissional me encantei com as disciplinas de
Evolução do Equipamento (História dos Interiores e Mobiliário) que juntavam
tudo o que me interessava em História da Arte com a parte de Interiores e
Móveis. Foi a partir do interesse em me aprofundar nesse tema que eu decidi,
mesmo trabalhando já no mercado como designer, continuar estudando História e
Teoria, no viés da História do Mobiliário. Então passei os primeiros 10 anos de
formada atuando na área acadêmica (dando aulas de História da Arte e História
do Mobiliário) ao mesmo tempo em que fazia projetos e acompanhava obras. Quando
eu passei no concurso para o CEFET/RJ que esse sistema mudou, o regime de
dedicação exclusiva me condicionou a manter somente o trabalho acadêmico e
passei a desenvolver pesquisas e estudos de extensão nas áreas de Cultura
Brasileira, Patrimônio Cultural e Museus, além da História da Arte. Minha
pesquisa acerca da História do Mobiliário continuou nos estudos do doutorado, paralelamente,
onde pesquisei o Ensino de Arte Decorativa. O campo do Patrimônio sempre foi a
área de maior extensão dos meus trabalhos no CEFET/RJ junto ao turismo, sobretudo
nas trocas com alunos e outros professores. Durante 10 anos desenvolvemos
juntos os Seminários de Patrimônio Turístico, com participação de professores
do CEFET/RJ e convidados externos que avaliavam e contribuíam para as pesquisas
dos alunos sobre patrimônio imaterial brasileiro. Esse trabalho foi muito
inovador e interessante, pois consistia na análise de elementos culturais
brasileiros que os alunos percebiam ter o potencial para ser tombado como
patrimônio cultural. O dinamismo do trabalho foi alcançando uma esfera tão
ampla que muitos dos bens sinalizados pelos alunos, tempos depois realmente
vieram a ser reconhecidos como bens por órgãos oficiais de preservação, o que
reforçava ainda mais a nossa iniciativa. Esse projeto foi fundamental para um envolvimento
maior na área do patrimônio no CEFET/RJ e através dele percebemos como o
colegiado de Turismo dialogava em seus temas de pesquisa através de elementos
do patrimônio cultural. Daí que surgiu a ideia de criar um curso de
pós-graduação para expandirmos e aprofundarmos essas pesquisas, e também apresentarmos
como uma opção de continuidade para os estudos na área do turismo cultural na
instituição.
Você já atua como professora na área de artes
há 15 anos, já passando por diversas universidades tanto públicas como
privadas. Quais foram seus maiores desafios durante todo esse processo no mundo
universitário como professora acadêmica?
Linhares: Para mim, em todo meu
processo, eu acho que o maior desafio é conduzir a vida acadêmica com a
maternidade! Obviamente que o aprofundamento dos estudos em mestrado e
doutorado são trabalhosos e requerem muita responsabilidade e disponibilidade,
mas, para mim, a dificuldade do contexto acadêmico e dos compromissos
institucionais com produtividade acadêmica representam os maiores desafios,
ainda mais intensificados com a pandemia da COVID-19. Grupos de pesquisa
recentemente conseguiram que o CNPq reconhecesse essa particularidade da
maternidade/paternidade e vão destinar no Currículo Lattes um espaço para que
essa informação conste na justificativa de uma diferença na produtividade,
porém eu considero que isso seja apenas o início de um processo longo e
que espero que apoie mais os docentes mães e pais no futuro.
Fale um pouco sobre a importância da educação
superior em Artes em geral.
Linhares: Atualmente eu acompanho muito mais as formações
em Turismo do que em Artes, mas se eu fosse apontar algo que considero
relevante nesse campo são os estudos decoloniais em arte. Considerando que a
abordagem decolonial pode ser considerada em toda e qualquer área de estudo,
mas acho que ela é fundamental no campo das artes visuais, sobretudo porque
temos forte influência europeia no entendimento artístico e nos moldes de
ensino artístico. Nesse sentido, acredito muito na articulação entre temas da
arte e do patrimônio (imaterial, principalmente) para ampliação desse
repertório e a adição de reflexões acerca da arte no Brasil que considere, de
forma mais ampla, os povos originários, a arte afro-brasileira, os
regionalismos, as produções artísticas de comunidades específicas - como
caiçaras, quilombolas etc. Eu acredito que a partir de estudos que ampliem o
espectro da arte e da história da arte para esses campos, nós possamos
estabelecer culturalmente uma nova relação social no país, trabalhando com
propostas que envolvam, através da arte (da produção artística, da educação
artística ou da história e teoria da arte) uma visão mais ampla de sociedade,
de cidadania e de pertencimento cultural no Brasil.

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